Um dos casos criminais de maior repercussão da história recente de Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio. O tabelião Ricardo Pinheiro Jucá Vasconcellos foi condenado a 70 anos, 6 meses e 15 dias de reclusão em regime fechado pelo assassinato da mulher, Nahatty Gomes, grávida de seis meses, e dos sogros, Rosemary Gomes da Cunha e Wellington Gomes Melo, em agosto de 2021, no bairro Cônego.
O julgamento, realizado no Tribunal do Júri do Fórum de Nova Friburgo, durou cerca de 29 horas de sessão divididas em dois dias intensos, mobilizando familiares, advogados, Ministério Público, Defensoria Pública e dezenas de pessoas que acompanharam o caso desde o início.
Entre os depoimentos, chamou atenção o relato de Saliha Mello, irmã de Nahatty, que relembrou os últimos momentos ao lado da família, como quando fez uma chamada de vídeo com sua irmã e seus pais poucas horas antes da tragédia. Também no primeiro dia aconteceu o interrogatório de Ricardo Jucá, que durou cerca de uma hora.
Durante o depoimento, ele voltou a sustentar a versão de que sofreu um surto psicótico no dia do crime, provocado pelo uso de medicamentos psiquiátricos, e afirmou não se lembrar de nada a partir do momento em que pegou a arma usada nos assassinatos.
A Defensoria Pública manteve a tese de que Ricardo não possuía plena capacidade mental no momento dos crimes e pediu a chamada absolvição imprópria, com aplicação de medida de segurança e tratamento psiquiátrico. Os defensores também alegaram ausência de provas suficientes para condenação criminal comum.
Por outro lado, o Ministério Público sustentou que o crime foi premeditado e que o réu tinha total consciência dos próprios atos.
Durante a sustentação da acusação, um dos momentos de maior impacto aconteceu quando foi exibido um vídeo produzido por Saliha, reunindo áudios, fotos e registros da convivência familiar das vítimas.
O material comoveu familiares, presentes no plenário e parte da equipe envolvida no julgamento. Segundo os promotores, no entanto, Ricardo Jucá permaneceu sem esboçar qualquer reação emocional durante toda a exibição.
Na sentença lida pela juíza Dra. Simone Dalila Nacif, ficou estabelecido que o réu foi condenado pelos assassinatos e pelo crime de aborto provocado, com o reconhecimento de agravantes que tornaram a punição mais severa, entre elas o feminicídio, a violência doméstica, o fato de uma das vítimas estar grávida e a impossibilidade de defesa das vítimas durante o ataque.
Ao definir a pena, a magistrada considerou que as provas apresentadas durante o julgamento mostraram que o réu tinha plena consciência do que fazia no dia do crime, descartando a tese da defesa de que ele estaria em surto psicológico.
Segundo a decisão, ele realizou atividades normalmente horas antes dos assassinatos, negociou a compra de uma arma e demonstrou comportamento incompatível com alguém sem controle sobre os próprios atos.
A juíza também destacou a extrema gravidade das consequências do crime, ressaltando o impacto devastador causado à família das vítimas. Na avaliação da sentença, além das mortes violentas, o caso destruiu praticamente todo um núcleo familiar em um único episódio, causando sofrimento permanente aos parentes sobreviventes, fator que contribuiu para o aumento da pena aplicada ao condenado.
Ao final da leitura da sentença, a emoção tomou conta do plenário. Alguns integrantes do conselho de sentença chegaram a se emocionar com o encerramento de um processo que mobilizou a cidade durante anos.
Paulo Campos, marido de Saliha, abraçou a mulher logo após o resultado e disse:
“Agora você vai poder dormir em paz.”