Mensagens interceptadas pela Operação Carbono Oculto 86, deflagrada em novembro de 2025 no Piauí, revelaram conversas entre o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, e acusados de participação em um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis.

Uma reportagem assinada pelo jornalista Breno Pires, da revista piauí, revelou que o parlamentar, que não é investigado no inquérito, mantinha contato direto com empresários de um grupo suspeito de usar postos, empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs para lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Grupo de WhatsApp com Ciro

A quebra de sigilo telemático dos empresários Haran Sampaio e Danillo de Sousa, denunciados à Justiça acusados de adulterar combustíveis, fraudar vendas, ocultar patrimônio e lavar dinheiro em associação com Roberto Leme, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, conhecido como Primo, revelou um grupo de WhatsApp chamado “Ciro Vitor Haran Danilo”.  Nele, o senador, tratado como “Sena”, teria convidado os investigados para “tomar um café” em sua casa em novembro de 2023.

O encontro teria ocorrido às vésperas de os empresários fecharem a venda de parte de sua rede de postos para “Beto Louco”, apontado como um dos líderes da fraude. Em uma das mensagens sobre o negócio, Haran escreveu: “Só depende do ok dele”. Ciro respondeu apenas: “Ok”. Poucos dias depois, em dezembro de 2023, o negócio foi concluído.

Os quatro seguiram as conversas nas semanas seguintes. No dia 4 de janeiro, Ciro escreveu no grupo: “Querem passar aqui no hotel pra gente atualizar as coisas?”. Haran respondeu: “Ok, estamos indo.” Em seguida, Vitinho disse: “Estamos aqui”, e Ciro pediu “5 min”. O diálogo deixa subentendido que os três se encontraram naquela tarde.

Lobby e emendas

Segundo as investigações, Victor Linhares, o “Vitinho”, ex-assessor do senador, atuou como lobista e recebeu R$ 230 mil dos empresários na mesma época das negociações, dinheiro que teria transitado por uma fintech investigada por lavar recursos ilícitos. Ele foi denunciado pelo Ministério Público, acusado de lavar dinheiro para o esquema de fraudes.

A polícia obteve ainda um áudio com a mensagem: “Opa, deputado Júlio, tudo bom? É o Haran aqui. Quando você puder me dá uma ligada.” Em outra conversa, via mensagem de texto, um dos sócios tenta marcar um encontro com um interlocutor identificado como “Deputado Julio Arc”, que seria o deputado federal  Júlio Arcoverde (PP-PI), aliado de Ciro Nogueira.

Um relatório do Coaf detectou ainda um repasse de 9,5 mil reais feito pelo CNPJ “Eleição 2022 Júlio Ferraz Arcoverde Deputado Federal” para a empresa HD Petróleo, dos dois empresários.

Ciro Nogueira e Júlio Arcoverde ainda não são formalmente investigados no inquérito, pois possuem foro privilegiado e qualquer apuração precisaria ser remetida ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em nota enviada à piauí, a assessoria de Ciro afirmou que ele não tem “envolvimento com ações ilícitas” e que tentativas de ligá-lo a escândalos serão frustradas.

Arcoverde também negou irregularidades, afirmando desconhecer “quaisquer menções relacionadas ao seu nome no contexto citado e reforça que não é investigado no âmbito da operação mencionada. O parlamentar reitera que não possui qualquer envolvimento com ações ilícitas”.

A reportagem da piauí não localizou Haran e Danillo e Vitinho enviou uma mensagem dizendo: “O inquérito policial tramita em segredo de justiça. Qualquer divulgação indevida pode acarretar penalidades. Sugiro consultar a assessoria jurídica do portal para mais informações.” Roberto Leme, o Beto Louco, e Mohamad Hussein Mourad, o Primo, estão foragidos desde a deflagração da Carbono Oculto em agosto de 2025.