Um desabafo pode destruir alianças mais rápido do que uma denúncia de corrupção.
O recente discurso de Michelle Bolsonaro reacendeu um fenômeno típico da política brasileira: qualquer manifestação pública é imediatamente transformada em prova de culpa, fraqueza ou cálculo estratégico. Mais grave do que suas palavras foi o cancelamento coletivo que recebeu — inclusive dentro do próprio campo político.
Este texto não é uma defesa de Michelle, mas uma observação sobre um mecanismo corrosivo: quando até a emoção precisa ser aprovada pelo coletivo, a política deixa de reconhecer a pessoa por trás da figura pública.
Se fala, acusam de perder o controle. Se cala, dizem que esconde algo. Desaparece a interpretação mais simples: a de que existe uma pessoa real.
Em poucas horas, o discurso virou prova de colapso, arma eleitoral e evidência de fragilidade irreversível. Aliados voltaram-se contra ela. O sistema não precisou agir: os próprios entregaram sua cabeça, absorvendo a lógica que dizem combater — a da narrativa acima da verdade, da estratégia acima da pessoa.
O contraste é brutal: o mesmo ambiente que transforma um choro em catástrofe absorve denúncias de corrupção com naturalidade. Licitações suspeitas desaparecem sem deixar marcas, enquanto lágrimas viram escândalo nacional.
Não se trata de relativizar crimes, mas de expor uma assimetria: a indignação pública raramente é proporcional aos fatos. Ela costuma ser proporcional ao interesse de quem consegue organizá-la.
A polarização criou dois sistemas paralelos de julgamento. Num, qualquer gesto é dissecado em busca de fraqueza. Noutro, denúncias entram e saem sem consequências. O critério deixou de ser a verdade; passou a ser a eficácia da narrativa. Sobrevive melhor quem domina a arte do estratagema: transformar qualquer episódio em munição política e qualquer emoção em instrumento de convencimento.
O resultado é um sistema que pune palavras e tolera práticas. Que mutila reputações por uma emoção mal interpretada, enquanto desvios concretos surgem, são contestados, relativizados e desaparecem.
Quando a democracia aprende a escandalizar o choro e a tolerar o desvio, o problema não está em quem chorou. O problema está no que aprendemos a considerar intolerável.
Bernadete Freire Campos
Cidadã brasileira, especialista em neurociência, estudiosa do comportamento humano no contexto político.


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