Quem fala muito dá bom dia a cavalo, diz o ditado. Lula fala muito. E, cada vez mais, quando fala, é uma metralhadora de bobagens.
Ontem, poderia ter falado algo na linha “enquanto homem tem medo de toque, a mulher está acostumada a fazer exame ginecológico desde pequena”. Passaria batido. Mas o presidente, no meio do entusiasmo, usou a palavra “toque” para meninas também, o que é uma óbvia impropriedade.
A imprensa amiga veio em socorro. A manchete do Estadão, por exemplo, usa o termo “insinuação” para a interpretação de que Lula havia se referido a abuso sexual. Os advogados do PT usam o termo “descontextualização”. A frase completa está aí, sem cortes. Não há “insinuação” ou “descontextualização”, mas apenas uma interpretação plenamente possível.
Sinceramente, não acho que Lula estivesse se referindo a abuso sexual, e que as mulheres supostamente estão acostumadas a isso “desde pequenas”. Mas o uso do termo “toque”, de resto estranho a procedimentos ginecológicos femininos, foi, no mínimo, infeliz, e dá, sim, margem a outras interpretações. E não é preciso um vídeo do Nikolas para chamar a atenção para isso.
Mas queria chamar a atenção para outro ponto.
Lula parece aquele ex-jogador de futebol em atividade. Simplesmente dá pena de vê-lo em campo, considerando o quanto jogou em seu auge. Seu discurso ontem me chamou mais a atenção pelo todo do que pela frase polêmica. É o mesmo nhe-nhe-nhem de 20 anos atrás, as mesmas promessas, o mesmo estilo “sou povo como vocês”. Há 20 anos funcionava, hoje é o jogador que tenta os mesmos dribles do passado e só o que consegue é despertar alguma nostalgia de um tempo que já passou.
Até entendi, na época, sua vontade de disputar as eleições de 2022, dando a volta por cima depois de ser preso. Mas, se fosse realmente inteligente, teria preparado um seu sucessor para esta eleição. Preferiu a disputa pela reeleição, representando a figura de um político cansado e antiquado, a quem só importa manter-se no poder, como um típico caudilho latino americano. Patético.
PS.: Em um outro comício ontem, Lula lembrou os “boatos” sobre a Padroeira. Ou seja, algo que Lula efetivamente disse não pode ser usado contra ele pois se trataria de “insinuação” ou “descontextualização”, mas o candidato pode usar algo que o adversário não disse, e tudo certo. Flávio nem sequer falou sobre o assunto, ele não está sendo vítima de “insinuação” ou “descontextualização”. A coisa é mentira pura e simples.
Marcelo Guterman. Engenheiro de Produção pela Escola Politécnica da USP e mestre em Economia e Finanças pelo Insper.

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